13 de Junho de 2007

O Património rural como problema e ideologia


A identidade encontra-se profundamente ligada à memória. Enquanto informadora da memória dos povos ,e, dando a conhecer a vivência real do passado, a História desempenha um papel fundamental como factor de coesão ou dissociação quando se estabelecem projectos de intervenção no Património. O seu propósito é precisamente compreender a realidade após um tratamento rigoroso dos acontecimentos e fenómenos investigados. Isto significa, em última análise, que não é a realidade histórica que perdura, o que perdura é a imagem, sob a forma de Património móvel e imóvel, que ficou dessa mesma realidade, transformada em História.
Mas a definição e os contornos de intervenção no Património nacional regional não dependem somente da emissão de pareceres ou regulamentos; dependem também de quem os recebe e aplica, mas sobretudo do resultado final da complexidade de relações entre poderes culturais locais.

Actualmente, estes valores são articulados com matérias relativas ao património arquitectónico através da reafectação/reutilização dos imóveis, problemas ambientais e afirmação da paisagem a reabilitar- o que alarga a ideia de património edificado, não como peça isolada, mas como um problema das comunidades e do bem-estar geral. Verifica-se a atracção por um sistema patrimonial mais vasto, não só sendo dada atenção à envolvente imediata, mas a toda a vida material e simbólica que lhe é inerente, conferindo-lhe uma paisagem mais humanizada e criando uma envolvência como património “de proximidade” .

Partindo do pressuposto que a comunicação é o elemento que retarda, mantém ou acelera o processo de relacionamento e interacção social, o melhor ponto de partida talvez esteja, para além da necessária despersonalização de interesses, a reformulação do discurso politico–cultural ,apostando numa maior transmissão de informação essencial sobre o que é e o que vale o “Património Cultural”, por parte dos agentes responsáveis por ele ao nível nacional.
Urge divulgar interesses e valores quanto à herança comum e perspectivas quanto ao futuro ou futuros possíveis para ela. Pois se, na actualidade, assistimos à destruição do Património rural é porque a política de conservação ainda não foi digerida com assertividade efectiva tendo em atenção a opinião pública enquanto fundamento essencial da intervenção no Património.

É, sem dúvida, necessário implantar uma sinergia que reproduza uma dinâmica que dê a conhecer globalmente a validade do conceito de Património Cultural e em que se encontrem disseminados os motivos que justificam um sistema de cooperação de toda a sociedade. Para isto, é crucial a criação de apoios mais eficazes à divulgação do Património Cultural local, com a produção de informação concreta e acessível como palestras, notícias, filmes históricos e documentários sobre as mais variadas facetas da realidade social e cultural local ou a realização de eventos culturais de impacto mediático ao nível nacional - veja-se o exemplo de sucesso na ordem do dia- a “Selecção das sete Maravilhas de Portugal”-aberto às mais variadas manifestações culturais.
Apesar de se verificar uma gradual evolução através de novos programas de reabilitação e valorização, ou aperfeiçoamento dos já existentes e uma maior consciencialização para encarar o Património como um projecto comum de cidadania, há um papel importante a cumprir para o entendimento do nosso Património como gerador de qualidade de vida. Esta perspectiva de esclarecimento social carece de apoio e afinco por parte das entidades públicas e dos próprios especialistas, que podem claramente ter um papel mais activo na sensibilização da comunidade, criando um lugar-comum de perspectiva integrante do nosso legado historico-artistico e dando a entender o Património na sua essência - interpretar e analisar o que fomos e o que somos, enquadrando-nos no nosso tempo.

Vanessa Henriques Antunes
Conservadora-restauradora

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